O jovem que não conhecia o medo

Certo dia, uma mulher e seu filho tomavam ar fresco ao cair da tarde, sentados no pátio de sua casa. A casa ficava muito distante do povoado, e quando o sol se pôs e a escuridão da noite envolveu tudo em suas sombras, a mulher disse ao jovem:

– Meu filho, vá e feche a porta, pois estou com medo.

– O que é o medo? – Perguntou o rapaz.

– Ora sentir temor – ela respondeu.

Mas a resposta de sua mãe não deixou o jovem satisfeito.

– Não sei o que você quer dizer, mãe. Tenho de experimentar o medo. Vou dar um passeio.

E sem prestar muita atenção aos protestos de sua mãe, adentrou-se na noite, afastando-se da casa. Caminhou até o sopé de uma montanha, onde mais de trinta ladrões se encontravam sentados em volta de uma grande fogueira. O jovem aproximou-se deles e um dos bandidos, que parecia ser o capitão, falou:

– Nem mesmo um pássaro se aventura a voar para esses lados, e nenhuma caravana cruza este caminho. Como você se atreve a aproximar-se de nós?

– Pretendo conhecer o medo. Mostrem-no a mim.

– O medo está aqui, conosco – disse o ladrão.

– Onde? – Perguntou o rapaz.

Então, o ladrão respondeu:

– Pegue este pote, farinha, manteiga e açúcar. Entre nesse cemitério e celebre uma festa com os defuntos.

– Assim farei – respondeu o jovem.

No cemitério acendeu uma fogueira e começou a misturar a farinha, a manteiga e o açúcar. Quando havia terminado, uma enorme mão saiu da terra e fez-se ouvir uma voz:

– Quem é o atrevido?

O rapaz golpeou a mão com sua colher e respondeu:

– Eu que vim celebrar minha festa com os mortos. Volte para onde está teu pé. Agora desapareça!

Ao ouvir esta ofensa, a mão desapareceu e o rapaz, que terminara sua mistura, voltou para perto dos ladrões.

– Então, conheceste o medo? – Perguntaram os ladrões entre risadas.

– Não. Houve apenas uma mão que saiu da terra, pelo visto queria provar a minha sopa; mas levou uma colherada e voltou para o lugar de onde veio.

Os ladrões ficaram assombrados e um deles disse:

– Não muito longe daqui há um casarão abandonado; ali, sem dúvida sentirás medo.

O jovem foi até a casa e entrou; encontrou-se então em um enorme salão completamente vazio e viu, pendurado no teto, um cesto em que havia uma criança chorando. De repente surgiu da escuridão uma jovem, dando voltas nervosamente e olhando com desespero para o cesto pendurado. A donzela aproximou-se do jovem e disse:

– Levanta-me nos seus ombros. A criança está chorando e eu quero niná-lo, mas o cesto está tão alto que assim não o alcançarei.

Ele concordou e a moça se sentou sobre seus ombros. Enquanto balançava a criança, a jovem apertava com os joelhos o pescoço do rapaz. Ele sentiu que ia morrer estrangulado, então deu um salto e a mulher desapareceu, deixando cair no chão um bracelete. O jovem pegou-o e se afastou da casa.

Ao atravessar a rua, um velho judeu que viu o bracelete aproximou-se dele dizendo:

– Este bracelete é meu.

– Não, não é. O bracelete pertence a mim.

O judeu insistiu:

– Ele é minha propriedade.

– Pois vamos até o juiz. Se ele disser que é seu lhe darei. Senão ficarei com ele.

Quando expuseram o caso ao juiz, este setenciou:

– O bracelete será daquele que prove ser seu dono.

Nenhum dos dois pôde fazê-lo, e o juiz guardou a jóia até que comprovassem a quem pertencia.

O rapaz não se esquecera de que havia saído em busca do medo, e que nada do que havia acontecido o fizera senti-lo. Depois de muito caminhar, chegou a uma praia onde viu um barco que naufragava, e gritou:

– Vocês tem medo de se afogar?

E uma voz lhe respondeu:

– Claro que temos medo, como não iriamos ter medo, se estamos a ponto de morrer?

Rapidamente, ele tirou suas roupas e, atirando-se ao mar, nadou até chegar a embarcação.

Outra voz lhe disse:

– Estamos naufragando, como podes perguntar se temos medo?

O jovem amarrou um cabo na cintura e descendeu até às profundezas do oceano. Ali descobriu que a filha do mar estava puxando o barco. Amarrou-a com o cabo e trouxe-a para fora d’água. Chegando à superfície, perguntou-lhe em tom desafiante:

– É isto o medo?

E soltou-a,virando as costas e afastando-se de novo em busca do medo.

Caminhou pela costa e descobriu um grande jardim em frente ao qual havia uma fonte. Três pombos que saltitavam ao seu redor submergiram n’água e ao voltar a sair se converteram em três donzelas que traziam uma mesa com taças para beber. Quando uma delas se dispôs a brindar, as outras duas lhe perguntaram:

– À saúde de quem bebes?

Ela respondeu:

– Bebo a saúde daquele que celebrou sua festa entre os defuntos e não desmaiou quando saiu uma mão da terra.

Quando a segunda ia beber, as outras perguntaram o mesmo, e ela respondeu:

– À saúde daquele que não teve  medo de morrer estrangulado.

Por último, a terceira levantou sua taça e respondeu à pergunta das outras:

– No mar naufragava um barco; um jovem aprisionou a donzela que era culpada e não tremeu. À sua saúde bebo.

O rapaz resolveu falar:

– Eu sou esse jovem.

As donzelas o abraçaram e ele continuou:

– O juiz conserva o bracelete que caiu do braço de uma de vocês. Um velho judeu quis tirá-lo de mim, mas não permiti.

As jovens pegaram sua mão e desceram com ele a uma cova onde havia vários pátios, e em cada pátio uma infinidade de jóias dentro de caixas. Uma das donzelas disse:

– Tome este outro bracelete. Como é igual ao que está com o juiz, podes comprovar que os dois são teus.

Assim fez o rapaz e voltou com os dois braceletes à caverna.

– Não saias nunca do nosso lado! – disseram as donzelas.

– Sinto muito, mas não posso ficar enquanto não saiba o que é o medo.

E despedindo-se delas, seguiu seu caminho.

Logo chegou a um lugar onde se aglomerava uma multidão.

– O que está acontecendo? – perguntou o jovem.

Responderam-lhe que como havia morrido o rei daquele país, iam escolher um sucessor. Para a eleição, soltariam uma pomba que pousaria sobre a cabeça daquele designado pelos céus.

E quando soltaram a pomba, esta foi pousar na cabeça do jovem que não conhecia o medo. Como ele não se considerava digno de aceitar tal honra, soltaram uma nova pomba que, como na vez anterior, pousou na cabeça do jovem. Então o povo começou a gritar: “Você é nosso rei!”.

– Mas se estou em busca do medo! Não posso ser rei! – dizia enquanto era arrastado pela multidão para o palácio.

Finalmente, da janela da sala do trono disse a multidão:

– Aceito ser rei por esta noite, mas amanhã partirei em busca do medo.

Atravessando os aposentos do palácio, chegou a uma sala onde viu alguns homens construindo uma caixão e esquentando água.

Quando terminaram seu trabalho, ele resolveu que dormiria naquele aposento. Encostou o caixão na parede, apagou o fogo com água e começou a dormir.

Quando, de manhã, os homens entraram esperando encontrar o novo rei morto e viram que gozava de perfeita saúde, foram contá-lo a sua sultana, que lhes disse:

– Quando chegar a noite e estiver jantando comigo, coloquem um pardal vivo dentro da sopeira.

Enquanto jantavam, a sultana disse ao rei:

– Levante a tampa da sopeira.

– Não, porque não quero sopa – respondeu.

– Mas eu quero, faça-me este favor.

Tão logo o jovem levantou a tampa, o pássaro saiu voando. Foi tão inesperado o incidente que o rapaz sentiu um fugaz calafrio.

-Viu isto que você acaba de sentir? – disse a sultana. – Pois isso é o medo.

– É só isso? – Perguntou o jovem.

– Você agora já tremeu uma vez, que era o que buscava conseguir; o tremor será maior ou menor, mas já poderá conhecê-lo se voltar a senti-lo – respondeu ela.

Durante quarenta dias, celebrou-se o casamento entre a sultana e o jovem, e este governou com justiça durante muitos anos.

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