O Ermitão

Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babilônia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom coração. No momento em que esta história começa ele estava viajando a pé para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria.

Mas até esse momento tinha encontrado tanta miséria e suportado tantos e terríveis desastres que estava tentado a rebelar-se contra a vontade do céu e acreditar que a Providência, que rege o mundo, desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse. Neste triste estado de espírito estava ele caminhando um dia às margens do Eufrates. Por casualidade encontrou um venerável ermitão cuja barba, branca como a neve, descia até a cintura. Em sua mão o ancião levava um rolo de pergaminho que lia com atenção. Zadig parou e fez-lhe uma reverência. O ermitão devolveu-lhe a saudação com um ar tão bondoso e tão nobre que Zadig sentiu curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe então o que ele estava lendo:

– É o Livro do Destino – disse o ermitão. – Você gostaria de ler este livro?

Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de conhecer uma dezena de línguas, não pode entender uma só palavra do livro.

Sua curiosidade foi aumentando.

– Você parece ter problemas… – disse o bondoso ermitão.

– Sim, infelizmente tenho – disse Zadig. – E tenho razões para estar assim.

– Se me permite – disse o ancião, – eu o acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe útil. `As vezes sou capaz de consolar os aflitos.

Zadig sentiu um profundo respeito pela aparência, a barba branca e o pergaminho misterioso do velho ermitão, e percebeu que a conversa dele era a de uma mente superior. O velho falou do destino, da justiça, da moral, do principal bem na vida, da debilidade humana, da virtude e do vício, com tal poder de eloquência que Zadig se sentiu atraído por uma espécie de encanto, e suplicou ao eremita que não o deixasse até que regressassem à Babilônia.

– Peço-lhe o mesmo favor – disse o ermitão. – Prometa-me que, haja o que houver, você permanecerá em minha companhia por alguns dias.

Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.

Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande mansão. O eremita pediu comida e alojamento para ele e seu companheiro. O porteiro, que poderia ser confundido com um príncipe, os introduziu com um desdenhoso ar de boas-vindas. O chefe dos serventes lhe mostrou os magníficos aposentos, e então lhes foi permitido sentar-se em um canto da mesa, na qual estava o senhor da mansão, que nem se deu ao trabalho de olhá-los. Mesmo assim, iguarias em abundância lhes foram servidas, e depois de cear lavaram as mãos em uma bacia de ouro incrustrada com esmeraldas e rubis. Foram então levados para passar a noite em um formoso aposento. Na manhã seguinte, antes de deixarem o castelo, um servente trouxe uma peça de ouro para cada um.

– O senhor da casa – disse Zadig quando estavam caminhando – parece ser um homem generoso, ainda que um pouco arrogante, e pratica uma nobre hospitalidade.

Enquanto falava com ele se deu conta de que uma espécie de bolsa grande que o eremita levava parecia agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro incrustrada de pedras preciosas que o velho havia furtado. Zadig ficou pasmo, mas não disse nada.

Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez pediu hospedagem. Um velho criado, usando um puído casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os no estábulo e pôs diante deles umas poucas azeitonas meio estragadas, uns pedaços de pão dormido e cerveja muito amarga.

O ermitão comeu e bebeu com o mesmo prazer que tivera na noite anterior. Quando terminaram o ermitão se dirigiu ao criado, que não havia tirado os olhos deles para assegurar-se de que nada roubariam, deu-lhe as duas peças de ouro que haviam recebido naquela manhã e agradeceu a sua atenção, acrescentando:

– Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo.

O atônito servo os conduziu para dentro da casa.

– Poderosíssimo senhor – disse o ermitão, – eu gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico que aceite esta bacia de ouro como demonstração de minha gratidão.

O miserável avarento quase caiu da cadeira, de tão assombrado que ficou. O ermitão, sem esperar que ele se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu companheiro.

– Santo Pai – disse Zadig, – o que significa tudo isso? Para mim você não se parece em nada aos outros homens. Você rouba uma bacia de ouro com jóias de um senhor que nos recebe magnificamente e a dá a um tacanho que o trata indignamente.

– Meu filho – replicou o ermitão, – esse poderoso senhor que só recebe os viajantes por vaidade e para ostentar suas riquezas de agora em diante se fará mais sábio, e, por outro lado, o miserável será ensinado a praticar a hospitalidade. Não se espante com nada, e siga-me.

Zadig não sabia se estava tratando com o mais sábio ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermitão falou com tal convicção que Zadig, preso a sua promessa, não teve outra escolha senão seguí-lo.

Nessa noite chegaram a uma casa agradável, de aspecto simples, que não mostrava sinais de fartura nem de avareza. O dono era um filósofo que havia abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e contente. Ele havia criado esse calmo refúgio para seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma generosidade que não mostrava sinais de ostentação. Ele mesmo os conduziu a um quarto confortável, onde os fez descansar alguns instantes, e então veio buscá-los para servir-lhes uma delicada ceia.

Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram que os assuntos deste mundo nem sempre eram regulados pelas opiniões dos homens mais sábios. O ermitão, por sua parte, sustentava que os caminhos da Providência estavam envoltos em mistério e que os homens faziam mal em emitir julgamento sobre um universo do qual só conheciam uma parte muito pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que cometia atos tão loucos podia pensar tão corretamente.

Finalmente, depois de uma conversa tão agradável quanto instrutiva, o anfitrião conduziu os viajantes a seus quartos e agradeceu ao céu por enviar dois visitantes tão sábios e virtuosos.

Ofereceu-lhes algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que eles não puderam se sentir ofendidos. O velho recusou e se despediu, pois desejava partir para a Babilônia ao nascer do dia. Separaram-se em tom cordial, e Zadig estava cheio de agradáveis sentimentos por um homem tão amistoso.

Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermitão passaram algum tempo elogiando o anfitrião. Ao amanhecer o ancião despertou seu companheiro, dizendo:

– Devemos ir. Mas enquanto todos ainda estão dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal de minha estima.

Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo à casa.

Zadig começou a gritar horrorizado e teria impedido esse terrível ato, mas o ermitão, com uma força superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e o velho, que agora estava bem longe com seu companheiro, olhou calmamente para a pilha  fumegante.

– O céu seja louvado! – gritou. – A casa de nosso amável anfitrião está destruída de ponta a ponta!

Ao ouvir estas palavras, Zadig não sabia se chorava ou se ria; se chamava o venerável de velhaco, se o golpeava ou se corria para longe dali, mas ele não fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela aparência superior do ermitão, seguiu-o contra sua própria vontade até a hospedagem seguinte. Desta vez chegaram à residência de uma boa e caridosa viúva que tinha um sobrinho de 14 anos, sua única esperança e alegria. Ela fez tudo o que pode pelos viajantes.

Na manhã seguinte pediu a seu sobrinho que os guiasse na travessia de uma certa ponte em ruínas, perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu, ansioso por agradá-los.

– Venha – disse o eremita, quando eles estavam no meio da ponte,

– devo mostrar minha gratidão para com sua tia.

Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o atirou no rio.

O jovem caiu, reapareceu por um instante na superfície da água e logo foi tragado pele corrente.

– Oh, monstro! – exclamou Zadig. – Você é o mais detestável dos homens!

– Você me prometeu ter mais paciência – interrompeu o velho. – Escute!

Embaixo das ruínas daquela casa que a Providência achou conveniente por em chamas, o dono descobrirá um enorme tesouro; enquanto o jovem, cuja existência a Providência cortou, teria matado a tia em um ano e a você em dois anos.

– Quem lhe disse isto, bárbaro? – gritou Zadig. – Ainda que você tenha lido isso no Livro do Destino, quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca lhe fez nada?

Enquanto falava, Zadig viu que o ancião já não tinha mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e belo. Seu traje de eremita havia desaparecido, quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e brilhavam com ofuscante esplendor.

– Anjo do Céu! – gritou Zadig. – Você então desceu do céu para ensinar a um mortal extraviado a submeter-se às leis eternas?

– Os homens – replicou o anjo Jezrael – julgam todas as coisas sem conhecimento, e você é, de todos os homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por acidente na água e que a casa do filósofo se incendiou por acaso.

Mas a causalidade não existe: tudo é prova, castigo ou profecia.

Frágil mortal! Pare de questionar e de se rebelar contra o que você deveria adorar!

Depois de dizer estas palavras, o anjo alçou vôo até o céu e Zadig se prostrou ajoelhado.

Extraído de ‘Histórias da Tradição Sufi’ Edições Dervish 1993

Um elefante no escuro

Um elefante pertencente a uma mostra ambulante fora colocado num estábulo perto de uma cidade que até então nunca tinha visto um elefante. Tendo ouvido falar da maravilha escondida, quatro cidadãos curiosos foram tentar vê-la antes dos outros. Chegados ao estábulo, verificaram que não havia luz. A investigação, portanto, teve de ser feita no escuro.

Um deles, tocando-lhe a tromba, supôs a criatura parecida com uma mangueira de água; o segundo apalpou-lhe a orelha e concluiu que era um leque. O terceiro, pegando uma perna, comparou-a a um pilar vivo; e o quarto, tendo posto a mão no dorso do animal, convenceu-se de que era uma espécie de trono. Nenhum deles pôde formar uma imagem completa; e, partindo da parte com que cada um entrara em contato, só puderam referir-se ao animal em termos de coisas que já conheciam. O resultado da expedição foi uma confusão. Cada qual tinha a certeza de ter razão; e nenhum dos outros habitantes da cidade compreendeu o que acontecera, nem o que os investigadores haviam de fato, experimentado.

Extraído do livro “Os Sufis” de Idries Shah

O aprendiz de alfaiate que tinha imaginação demais

Era uma vez um jovem órfão, aprendiz de alfaiate, chamado Daud, que vivia no Cairo. Enquanto costurava, sentado com as pernas cruzadas, na loja de seu patrão, Daud sonhava acordado. Em sua imaginação ele era sempre um príncipe ou um nobre, vestido com as mais finas roupas.

Um dia um servo trouxe uma esplendida capa à loja do alfaiate. Pertencia a um rico mercador e tinha que ser cortada em algumas polegadas.

– Apronte-a para amanhã – disse o servo. – Voltarei para buscá-la antes do meio-dia.

– Estará pronta e acabada, ainda que minha loja tenha que permanecer aberta a noite toda – prometeu o alfaiate.

Pôs-se a trabalhar, e já havia quase terminado quando chegou a noite.

– Se não voltar para comer em minha casa, minha esposa me perturbará tanto que não acabarei nunca de escutá-la.

Assim, ele entregou a capa a Daud e disse-lhe que continuasse cosendo o forro até que ele voltasse.

Logo que seu patrão partiu, Daud trabalhou cuidadosamente e logo terminou o acabamento. A capa do mercador era de uma linda lã marrom, e Daud colocou-a ao redor dos ombros para assegurar-se de que o caimento estava bom. Ela lhe caía perfeitamente. Recuou um pouco para ver-se no espelho e pensou que tinha todo o aspecto de um cavalheiro. Colocou um par de botas de couro marroquino vermelho, que pertenciam ao alfaiate, amarrou um lenço branco ao redor de sua cabeça e sentiu que podia passar perfeitamente por um nobre.

“Poderia sair pelo mundo e fazer fortuna”, disse para si mesmo. “Ninguém saberia que eu sou Daud, o aprendiz de alfaiate”.

Remexendo embaixo do balcão, onde dormia quando a loja estava fechada, pegou todos os seus pertences e os colocou em uma pequena bolsa dentro do seu cinturão.

Foi para rua e entrou em um café, onde pediu comida.

Era muito tarde e o lugar estava cheio de gente. Após alguns minutos, um jovem rapaz, da sua idade, sentou-se à sua mesa.

Logo começaram a conversar, e rapidamente o recém-chegado começou a contar a Daud sobre a sua vida.

– Pela primeira vez em minha vida estou visitando esta cidade – disse o jovem. – Fui criado por meus tios no campo.

Quando nasci meu pai teve um sonho que o perturbou muito.

Nesse sonho apareceu um anjo dizendo que eu morreria, a não ser que fosse enviado para longe, para um lugar seguro.

Naquele tempo meus pais viviam em Alexandria, e a doença e a fome atacavam a cidade. Assim foi que me mandaram à casa da irmã de minha mãe, que tinha então um menino de minha idade. Minha mãe morreu e meu pai se mudou para o Cairo, porem não lhe foi possível comunicar-se comigo até este mês, em que completo meu décimo oitavo aniversário.

– Que história curiosa, amigo! – disse Daud, intrigado.

– Qual é o seu nome e como encontrará seu pai, agora que está aqui?

– Meu nome é Jabir – disse o outro. – Vim para encontrar meu pai neste mesmo café e ele deve chegar agora. Vê este punhal? Devo tê-lo em minha mão para que ele me reconheça e devo dizer em resposta à sua saudação: “Sou aquele a quem  Allah preservou!”. E ele responderá: “Louvado seja o Senhor do Mundo”.

Ele entregou a Daud um formosíssimo punhal, feito com o melhor aço de Damasco, com uma bainha decorada com turquesas.

Enquanto segurava o punhal em suas mãos, Daud imaginou-se como o filho que voltava para seu pai e se escutou repetindo a frase que o outro acabara de dizer.

Jabir desculpou-se por ter que sair por alguns minutos, pois devia ocupar-se de seu cavalo, deixando Daud com o punhal.

Logo que saiu um homem velho, alto e de aparência nobre veio até Daud e saudou-o.

– A paz esteja contigo! – disse-lhe.

– Sou aquele quem Allah preservou – disse Daud, como num sonho.

– Louvado seja o Senhor dos Mundos! – exclamou o velho homem.

E abraçou Daud afetuosamente.

– Meu querido filho! Depois de tantos anos! Eu te reconheceria em qualquer lugar!

Daud ia dizer algo, porém o homem o fez calar-se.

– Vem comigo – disse o velho homem. – Teu caminho e o meu serão o mesmo de agora em diante, e te contarei que planos tenho para ti.

Jabir não havia voltado ainda quando Daud, tentado pela oportunidade, foi-se com o ancião para uma enorme casa nos arredores do Cairo. Ali os quartos eram luxuosos e belíssimos, e Daud sentiu que seua sonhos finalmente tinham se tornado realidade. Pensava no ancião como seu pai e tinha esquecido completamente do desafortunado Jabir, cujo lugar havia tomado.

O aprendiz sonhador, imaginado que era o herdeiro legítimo do velho senhor, estava sentado no sofá olhando à sua volta enquanto traziam a ceia.

Um velho servo, chamado Hamid, estava servindo a água.

Hamid não podia acreditar que este era o filho de seu amo, estava certo de algo não estava bem. Sussurrou no ouvido do velho:

– Estás certo de que é teu verdadeiro filho?

O amo respondeu:

– Certamente. De que outra forma poderia ter conseguido o punhal e saber a frase que deveria dizer?

Repentinamente bateram muito forte na porta, e em poucos minutos entrou Jabir gritando:

– Aí está o bandido que roubou os meus direitos de nascimento!

– Não, não – disse Daud. – Pai, acredita-me, nunca vi esse homem em minha vida.

– Quem é quem? – exclamou o velho. – Não posso saber quem está dizendo a verdade.

Sem que os demais se dessem conta, o servo Hamid escorregou por detrás de seu amo e rasgou seu manto com uma navalha.

O aprendiz de alfaiate, ao ver o rasgão, tirou linha e agulha de seu pequeno bolso e tentou cosê-lo.

Então Hamid apontou para Daud dizendo:

– Olhem, este deve ser o aprendiz de alfaiate que tinha fugido! A polícia está a sua procura a noite toda! Há menos de uma hora vieram aqui. Estão fazendo averiguações em cada casa.

Daud correu até a porta, porem Hamid foi mais rápido que ele. Derrubou o desgraçado aprendiz e prendeu suas mãos com um pedaço de corda.

– Jabir, meu filho – disse o velho senhor. – Então era você e não ele!

E abraçou finalmente seu verdadeiro filho.

– Perdôo-te – disse a Daud. – Vá embora.

O pobre aprendiz foi levado de volta à loja do alfaiate, onde devolveu a capa que havia roubado. A policia queria prender Daud, porém, diante das súplicas de seu patrão, deixaram-no livre.

– Este meu ridículo aprendiz – disse o alfaiate – tem uma imaginação demasiado vivaz e posso entender muito bem que tenha sido tentado a levar a capa e personificar um nobre.

Visto que é órfão, eu o perdoarei e voltarei a empregá-lo, pois não tem mão ruim para coser.

Foi assim que Daud aprendeu sua lição e tentou corrigir-se.

Com o tempo, viveu até esquecer história de sua fuga e se converteu em um bom alfaiate, como seu patrão. Herdou a loja e nunca mais deixou que sua imaginação o dominasse.

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Extraído do livro: Historias da Tradição Sufi

O velho que nunca amou

Contam que o elevado e santo Bajezid Bistami encontrava-se falando a uma grande e atenta platéia. Todos os presentes, velhos ou jovens, estavam fascinados com suas palavras. No auge deste encantamento, quando seu discurso enlevava a todos, entrou um fumador de ópio, e com a fala algo arrastada disse:

– Mestre, meu burro se perdeu. Ajuda-me a encontrá-lo.

– Paciência, meu filho, eu vou achá-lo – disse-lhe Bajezid Bistami, continuando seu sermão.

Após algum tempo, enquanto ainda discursava, perguntou aos presentes:

– Existe alguém entre nós que nunca amou?

– Eu – disse um velho levantando-se – eu nunca amei ninguém, desde minha mais remota juventude. Nunca o fogo da paixão consumiu minha alma. Para que não turvasse minha mente, nunca deixei o amor ocupar meu coração.

O venerando Bajezid Bistami voltou-se então para o fumador de ópio que pouco antes o havia interrompido e lhe disse:

– Vê, meu filho, acabo de achar teu burro! Pega-o e leva-o daqui.

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Türkische Märchen, Eugen Diederichs Verlag, Jena, 1925

Traduzida do Alemão por Sergio C. Bello

Quem foi seu mestre?

Quando o grande místico sufi Hasan estava morrendo, alguém lhe perguntou: “Hasan, quem foi seu mestre?”.

Ele respondeu: “Tive milhares deles. Se apenas enumerasse seus nomes, levaria meses, anos, e agora é tarde demais. Mas certamente lhe contarei sobre três Mestres.

“Um deles foi um ladrão. Uma vez me perdi no deserto, e quando cheguei a uma aldeia já era muito tarde, tudo estava fechado. Mas finalmente encontrei um homem, que tentava fazer um buraco na parede de uma casa. Perguntei-lhe onde poderia ficar, e ele respondeu: ” A esta hora da noite será difícil, mas pode ficar comigo se for capaz de ficar com um ladrão!”.

“E o homem era tão harmonioso- fiquei por um mês! E toda noite ele dizia: “Estou indo agora a meu trabalho. Vá descansar e rezar.” E quando ele voltava, eu lhe perguntava: “Conseguiu algo?, e ele respondia: “Esta noite não. Mas amanhã tentarei novamente, e se Deus quiser…”Ele nunca se desesperava, e estava sempre feliz.

“Quando eu meditava e meditava por anos a fio, e nada me acontecia, muitas vezes havia momentos em que ficava tão desesperado, tão sem esperanças, que pensava em parar com toda aquela bobagem. E de repente me lembrava do ladrão que toda noite dizia: “Se Deus quiser, amanhã vai acontecer”.

“E meu segundo mestre foi um cachorro. Eu me dirigia a um rio, sedento, e um cachorro apareceu, também com sede. Olhou para o rio, vendo lá outro cachorro – sua própria imagem – e ficou com medo. Ele latia e se afastava correndo, mas sua sede era tamanha que acabava voltando. Finalmente, apesar do medo, simplesmente pulou na água, e a imagem desapareceu. E eu sabia que aquela era uma mensagem de Deus para mim: devemos dar o salto, apesar de nossos receios.

“E o terceiro Mestre foi uma pequena criança. Cheguei numa cidade, e uma criança estava carregando uma vela acesa. Ela se dirigia à mesquita, para lá depositar a vela. “Apenas por brincadeira, perguntei ao menino :”Você mesmo ascendeu a vela?. Ele respondeu: “Sim, senhor”. E continuei: ” Houve um momento em que a vela esteve apagada, depois houve outro em que ela se ascendeu. Você pode me mostrar a fonte da qual a luz veio?”.

“E o menino riu, assoprou a vela, e disse: Agora você viu a luz se indo. Para onde ela foi? Diga-me!

“Meu ego e todo o meu conhecimento ficaram despedaçados. E naquele momento senti minha própria estupidez. Desde então abandonei toda a minha erudição”.

O Sultão que se transformou num exilado

Conta-se que um sultão egípcio convocou certa vez uma reunião de conselheiros eruditos, e logo, como costuma acontecer, iniciou-se uma discussão. O tema era a Travessia Noturna do Profeta Maomé.

Diz-se que naquela ocasião o Profeta foi removido de seu leito para as esferas celestiais. Durante esse período pode ver o paraíso e o inferno, conferenciou com Deus noventa mil vezes, viveu muitas outras experiências, sendo trazido de volta a seu quarto quando a cama ainda estava morna. Uma moringa cheia d’água que fora derrubada e derramada por ocasião do vôo celestial ainda não se esvaziara quando o Profeta retornou.

Alguns sustentavam ser isso possível graças a uma maneira diferente de calcular o tempo. O sultão afirmava ser algo impossível.

Os sábios disseram então que tudo era possível para o poder divino.

Mas essa declaração não satisfez o rei.

As notícias sobre tal debate chegaram finalmente ao conhecimento do xeque sufi Shahabudin, que se apresentou imediatamente ante a corte.

O sultão demonstrou a devida humildade para com o mestre, que disse:

– Proponho proceder sem mais demora a minha demonstração, pois saibam que as duas interpretações do problema são incorretas, e que há elementos de verificação segura que podem explicar as tradições, sem necessidade de recorrer a especulações rotineiras ou a uma “logicidade” insípida e mal informada.

Havia quatro janelas no salão de audiências. O sufi abriu uma delas, por onde então o sultão olhou para fora. Numa montanha ao longe ele viu um exército invasor, cujas fileiras pareciam intermináveis, marchando rumo ao castelo. Ficou terrivelmente assustado.

– Peço-lhe que esqueça o que viu, pois não é nada – disse o sufi.

Assim dizendo, fechou a janela e voltou a abrí-la. Dessa vez não se via ninguém lá fora.

Mas quando abriu outra das janelas, a cidade estava sendo devorada pelas chamas. E o sultão gritou alarmado.

– Não há razão para alarma, sultão, pois não é nada – disse o sufi. Quando voltou a fechar e abrir em seguida a janela, não havia nenhum sinal de incêndio.

Ao ser aberta, a terceira janela deixou à vista uma torrente que já ameaçava inundar o palácio.

E, de novo, repetiu-se o fenômeno: a inundação não existia.

Quando a quarta janela foi aberta, em lugar do usual deserto, via-se agora um jardim paradisíaco. Mas ao ser novamente fechada e reaberta a janela o belo cenário desaparecera.

Então o xeque sufi ordenou que trouxessem uma vasilha com água, e pediu ao sultão que mergulhasse sua cabeça nela por um momento. Tão logo fez o que lhe era solicitado, o sultão encontrou-se sozinho numa praia deserta, um lugar que desconhecia inteiramente.

Sentiu-se enfurecido de repente com aquele feitiço mágico do aleivoso xeque e jurou vingar-se dele.

Logo ele encontrou uns lenhadores que lhe indagaram quem era. Impossibilitado de revelar sua verdadeira condição, lhes disse que era um náufrago. Então eles lhe deram algumas roupas, e se dirigiu a um povoado. Um ferreiro, vendo-o vagar ao acaso, perguntou-lhe quem era.

– Um mercador náufrago, agora sem recursos, dependendo da caridade de lenhadores – respondeu o sultão.

O ferreiro lhe contou então algo sobre um certo costume daquele lugar. Todos os forasteiros poderiam pedir em casamento a primeira mulher que saísse da casa de banhos, e ela teria que aceitar o pedido. Foi ao local indicado e viu sair dali uma bela moça. Perguntou-lhe se já era casada, e tendo obtido resposta afirmativa, perguntou à outra mulher, que era feia, e logo à seguinte. A quarta era realmente bela. Ela disse que era solteira, mas o recusou, desagradada por seu aspecto comum e sua roupa gasta.

Um pouco depois, um homem plantou-se diante dele, dizendo:

– Fui enviado aqui em busca de um homem andrajoso. Por favor, acompanhe-me.

O sultão acompanhou o servo e foi por este levado a uma casa magnífica, ficando a repousar durante horas num confortável e amplo quarto. Horas depois, quatro mulheres formosas e vestidas com elegância incomum entraram no aposento precedendo a uma quinta jovem de surpreendente beleza. Nela o sultão reconheceu a última mulher a quem fizera a proposta de casamento na saída da casa de banhos.

Ela lhe deu as boas-vindas e explicou que sua pressa em retornar à casa fora devida aos preparativos para a chegada do estranho. Esclareceu também que se comportara com arrogância horas antes por ser tal atitude um costume usual naquele país, praticado por todas as mulheres na rua.

Foi servida então uma refeição excelente. Maravilhosas roupagens foram trazidas e presenteadas ao sultão, enquanto uma música de acordes suaves era executada.

O sultão viveu sete anos com sua nova esposa, até dilapidarem todo o patrimônio pertencente a ela. Então a mulher lhe disse que agora ele devia sustentar a ela e a seus sete filhos.

Lembrando-se de seu primeiro amigo na cidade, o sultão voltou a procurar o ferreiro a fim de lhe pedir um conselho. Já que o sultão não tinha nenhum negócio ou ofício, o ferreiro lhe sugeriu ir ao mercado e oferecer seus serviços como entregador de encomendas.

Transportando pacotes pesadíssimos, após um dia de trabalho, o sultão só obteve uma décima parte do dinheiro necessário para a alimentação de sua família.

No dia seguinte, o sultão dirigiu-se novamente para a praia, onde encontrou o lugar exato do qual emergira havia sete anos. Disposto a rezar suas orações, começou a lavar-se na água. Foi quando, de modo súbito e patético, se achou de novo em seu palácio, com a vasilha de água, o xeque sufi e seus vassalos.

– Passei sete longos anos de desterro, homem perverso!- bradou o sultão.

Sete anos, uma família numerosa e tendo que trabalhar como carregador! Não teme a Deus, o Todo-Poderoso, por essa ação?

– Mas faz apenas um instante que o senhor mergulhou sua cabeça na água desta vasilha – retrucou o mestre sufi.

Todos os cortesãos confirmaram tal declaração.

O sultão não se deu por convencido, começando a dar ordens para a decapitação do xeque. Este, percebendo de saída o que ia ocorrer, graças a seu sexto sentido, pôs em prática o dom denominado Ilm el-Ghaibat, isto é, A Ciência da Ausência. Deslocou-se assim corporalmente e de maneira instantânea para Damasco, a muitos dias de distância dali.

Foi de lá que escreveu uma carta ao rei:

“Sete anos passaram para vós, como já tereis percebido, enquanto permanecestes por um instante com a cabeça dentro d’água. Isto ocorre graças ao emprego de certas faculdades, e não possui nenhum significado especial exceto como ilustração do que pode vir a acontecer. Por acaso, segundo a tradição do feito de Maomé, o leito do Profeta não permaneceu morno, e a jarra com água?”

“O detalhe importante não consiste em que alguma coisa tenha acontecido ou não. Tudo é possível de acontecer.

O importante, na verdade, é o significado do acontecimento. Em vosso caso, não houve nenhum. Mas no do Profeta houve ricas significações.”

Costuma ser dito que cada trecho do Alcorão possui sete significados, cada um aplicado ao estado de espírito do leitor ou do ouvinte.
Esta narrativa, como muitas outras do estilo sufi, enfatiza a frase de Maomé:

“Fale com cada pessoa de acordo com o grau de seu entendimento.”

Ibrahim Khawwas assim define o método sufi: “Demonstre o desconhecido com palavras que os ouvintes chamam de ‘conhecidas’.”

Esta versão foi extraída do manuscrito intitulado Hu-Nama (Livro de Hu), da coleção de Nawab de Sardhana, datado de 1596.

 

 

Extraído de

‘Histórias dos Dervixes’

Idries Shah

Nova Fronteira 1976

O PRINCIPE, O MESTRE E A ÁGUIA

Era uma vez uma rainha cujo marido havia morrido quando o seu filho tinha somente 05 anos. Ela foi então nomeada regente do reino até que seu filho completasse 18 anos e fosse capaz de governar.

O único defeito da rainha era que amava demasiadamente seu filho, Hasan, e lhe permitia fazer qualquer coisa que desejasse. E assim, apesar de ser uma boa monarca, seu filho ficava mais e mais teimoso e cheio de caprichos à medida que crescia.

Um dia a rainha chamou seu grão-vizir e lhe disse:

– Diga-me francamente o que posso fazer com meu filho.

É insolente, orgulhoso e muito difícil de controlar. Que posso fazer para corrigir os seus defeitos agora, antes que seja demasiado tarde?

O vizir respondeu:

– Coloque o príncipe aos cuidados de um mestre, e assim ele poderá adquirir sabedoria.

– Onde há um mestre que possa ajudar meu filho? – perguntou a rainha.

– Neste momento se encontra na cidade um velho homem sábio que dirige Al Azhar, a universidade do Islã. Irei falar-lhe, direi que o príncipe necessita de seu ensinamento, e talvez ele queira vir.

– Traga-o imediatamente, se puder – disse a rainha.

Então o vizir partiu, e logo retornou com o mestre, que tomou o príncipe sob os seus cuidados.

Todos os dias o ancião e o menino se sentavam para estudar e ler.

O mestre lhe contava sobre as maravilhas do mundo, da sabedoria do sagrado Corão e da ciência exata da álgebra.

Todas as semanas a rainha mandava buscar o mestre e perguntava:

– Como está progredindo meu filho?

O mestre sacudia a cabeça e se retirava.

Um dia a rainha perguntou:

– Meu filho agora está progredindo, mestre?

– Ele ainda não aprendeu que um príncipe deve ser humilde, que um rei é um servidor de seu povo e que não há poder a não ser em Deus.

– O que podemos fazer? – perguntou a rainha.

– Majestade, deixe-me levá-lo para viajar comigo – disse o mestre. – Se pudermos estar mais perto da natureza talvez isso ajude a mudar o seu caráter.

A rainha aceitou, e os dois partiram vestidos com roupas simples como as que usam os andarilhos.

No fim do primeiro dia de viagem, quando se sentaram para fazer café ao lado de um pequeno fogo, dois pássaros apareceram como o nada, pousaram sobre o alforje do ancião e começaram a gorjear.

– Faz muitos anos que aprendi a linguagem dos pássaros – disse o mestre, – mas agora me arrependo de tê-lo feito.

– Por que? – perguntou o príncipe.

A principio o mestre não queria explicar a Hasan o que os pássaros haviam dito, mas o menino insistiu tanto que afinal ele falou:

– O primeiro pássaro estava dizendo que no tempo em que fores rei haverá grande regozijo entre os pássaros que comem frutas, pois os jardins e os hortos serão abandonados e os pássaros poderão alimentar-se em paz. Ninguém os incomodará porque todo o povo destas terras terá ido embora. Ninguém quererá viver sob um reinado tão impopular.

– Que dizia o outro pássaro? – perguntou Hasan.

– O segundo pássaro disse que ele também ficara contente, pois haverá muitos gafanhotos para comer. Não haverá gente suficiente para atear fogo nos campos e afugentar os gafanhotos quando eles chegarem – foi a resposta do mestre.

No dia seguinte chegaram a um oásis onde os camelos estavam bebendo. Quando os viajantes tiraram os seus cantis os camelos começaram a fazer ruídos, como resmungos, entre si. O ancião sorriu ao escutá-los.

O que estão dizendo os camelos? – perguntou o príncipe.

A principio o mestre não quis responder, mas Hasan insistiu e finalmente conseguiu que falasse:

– Eles estão se queixando porque quando fores rei haverá tanta gente aqui dando de beber aos animais e preparando-se para abandonar o país para viver em outro lugar que será muito difícil para eles virem beber – disse o mestre.

O príncipe e o ancião seguiram viajando por alguns dias.

O príncipe e o ancião seguiram viajando por alguns dias até que pararam ao pé de uma montanha muito alta onde, sobre uma ponta rochosa, havia um ninho e filhotes de águia.

Ao aproximar-se, puderam ouvir a águia piando a seus filhotes, e o ancião traduziu:

– Ela está dizendo a seus filhotes que quando ficarem adultos e tu estiveres no trono deverão caçar ovelhas nos reinos vizinhos, pois as daqui estarão magras e fracas. As cobras e as lagartixas tomarão sol entre as ruínas da tua capital, e a grande mesquita estará vazia às sextas-feiras, quando tu fores rei. A menos…

O mestre parou de falar, mas Hasan lhe disse:

– Por favor, dize-me o que disse a águia.

– Ela disse que se corrigires tua conduta agora, e melhorares dia a dia, então teu nome será querido e teu reino será grande e feliz.

O príncipe não falou, mas o mestre viu que ele estava refletindo sobre tudo que havia ocorrido.

– Voltamos agora ao palácio para continuarmos com nossos estudos? – perguntou o mestre.

Hasan concordou.

Regressaram pelo mesmo caminho que tinham ido, e o mestre se alegrava em ver que seu aluno era a cada dia mais amável e reflexivo. Finalmente Hasan parecia haver compreendido o que significavam as suas lições e agora realmente se esforçava por aprender.

O ancião foi ver a rainha e falou:

– Agora eu posso partir, pois o príncipe está se preparando para transformar-se em rei. Será um bom soberano, porque agora sabe que antes de poder governar os outros ele deve ser capaz de governar a si mesmo.

A rainha, encantada, ofereceu-lhe um posto na corte, mas ele disse:

– Não. Tenho que continuar meu caminho, pois ainda tenho muito trabalho a fazer.

Quando chegou o tempo em que se tornou rei, Hasan recordou as coisas que seu mestre lhe havia ensinado, e governou bem e sabiamente até o final de sua vida.

Extraido do livro: Historias da Tradição Sufi
Ed.: Dervish